Quando os bispos falaram dos “dons” das pessoas homossexuais
Uma frase de Roma causou sensação mundial: os homossexuais teriam muito a dar à Igreja. A alegria durou pouco.
Em 13 de outubro de 2014, um documento de Roma atraiu a atenção mundial. Havia uma semana se reunia o Sínodo extraordinário dos Bispos, convocado pelo papa Francisco para debater questões ligadas à família. Naquela segunda-feira, seu relator-geral, o cardeal Péter Erdő, apresentou um relatório intermediário. Sobretudo as afirmações sobre as pessoas homossexuais chamaram a atenção.
O texto valorizava seus dons e qualidades como possível contribuição à comunidade cristã. Perguntava se as comunidades estavam prontas para oferecer um lar às pessoas homossexuais e aceitar sua orientação sexual, sem abrir mão da doutrina da Igreja sobre o casamento e a família. Também as uniões do mesmo sexo eram reconhecidas: o apoio mútuo, que podia chegar ao sacrifício, era descrito como um valioso suporte.
O jesuíta James Martin falou no mesmo dia de uma virada surpreendente. Formulações como “intrinsecamente desordenado”, que marcaram por décadas as declarações da Igreja sobre a homossexualidade, não apareciam no relatório. Um especialista em Vaticano comparou seu efeito a um terremoto.
Mas a abertura logo encontrou resistência. Cardeais conservadores criticaram duramente o rascunho e exigiram mudanças profundas. Poucos dias depois, o “acolhimento” na tradução inglesa deu lugar a uma formulação bem mais cautelosa.
No relatório final, quase nada restava dos sinais iniciais de reconhecimento. Ele pedia que as pessoas com tendências homossexuais fossem tratadas com respeito e delicadeza, mas ressaltava ao mesmo tempo que as uniões do mesmo sexo não eram de forma alguma comparáveis ao casamento. Nem esse parágrafo enfraquecido alcançou a maioria de dois terços necessária. Mesmo assim, Francisco mandou publicá-lo, junto com o resultado da votação.
Para muitos fiéis queer ficou sobretudo a decepção. Ainda assim, o relatório intermediário deixou uma marca: pela primeira vez, um documento oficial dos bispos apresentou as pessoas homossexuais também como um enriquecimento para a comunidade eclesial.