A confissão que derrubou uma lei
Um interrogatório por um incêndio, uma confissão e depois prisão por tempo indeterminado: o caso que abalou o Canadá.
Em 24 de agosto de 1965, Everett George Klippert estava numa sala de tribunal em Fort Smith, nos Territórios do Noroeste. A sentença: três anos de prisão por quatro acusações de “gross indecency”, indecência grave. Seu crime era ter feito sexo consentido com quatro homens.
Tudo tinha começado oito dias antes com um incêndio. Na manhã de 16 de agosto, a Polícia Montada investigava um incêndio criminoso no povoado mineiro de Pine Point e reparou em Klippert, ajudante de mecânico de 39 anos. À tarde, os policiais o levaram a Hay River. Em poucas horas ficou claro que ele não tinha nada a ver com o incêndio. Mas no interrogatório ele tinha falado de sua vida sexual.
O juiz não se contentou com os três anos. Pediu que Klippert fosse declarado “dangerous sexual offender”, porque o considerava incapaz de controlar seus impulsos sexuais. Dois psiquiatras o descreveram como um homem amável e tranquilo, que não representava ameaça de violência física para ninguém. Ao mesmo tempo, afirmaram que, depois de solto, provavelmente reincidiria. Queriam dizer que continuaria fazendo sexo com homens. Em março de 1966, o juiz J. H. Sissons o declarou criminoso sexual perigoso e ordenou sua prisão por tempo indeterminado. Todos os recursos fracassaram.
O caso virou assunto político. Quando, em 7 de novembro de 1967, a Suprema Corte rejeitou o recurso, o deputado Bud Orange chamou a situação de ridícula na CBC. Seis semanas depois, o ministro da Justiça Pierre Trudeau apresentou um projeto que descriminalizava os atos homossexuais consentidos em privado entre maiores de 21 anos. Em 1969 ele virou lei.
O próprio Klippert só foi solto em julho de 1971. É considerado o último canadense preso por atos homossexuais consentidos. Morreu em 1996, aos 69 anos. O indulto completo foi anunciado, cerca de vinte anos após sua morte, de novo por um primeiro-ministro Trudeau: Justin, o filho.