Rudolf Nureyev e o longo silêncio
Era considerado o maior bailarino de seu tempo e calou sua doença até o fim: Rudolf Nureyev morreu em 1993.
Em 6 de janeiro de 1993, Rudolf Nureyev morreu num hospital em Levallois-Perret, perto de Paris. Tinha cinquenta e quatro anos. A notícia correu o mundo, pois para muitos Nureyev era o maior bailarino do século XX. Que ele tinha morrido em decorrência da aids só se tornou público na manhã de sua morte.
Nascido num trem da Transiberiana, o jovem tártaro logo dançava como solista no Balé Kirov, em Leningrado. Em 1961, durante uma turnê, escapou de seus vigias da KGB no aeroporto parisiense de Le Bourget e pediu asilo. Foi a primeira fuga de um artista soviético para o Ocidente, uma sensação em plena Guerra Fria. Pouco depois conheceu o bailarino dinamarquês Erik Bruhn. Os dois se tornaram um casal. O relacionamento foi tempestuoso e durou alguns anos; a amizade, a vida toda.
Ao lado de Margot Fonteyn, Nureyev se tornou uma estrela mundial em Londres. Mudou a imagem do bailarino, que de repente era mais do que um apoio para a bailarina. Por mais de vinte anos permaneceu apátrida, até que a Áustria lhe concedeu a cidadania em 1982. Um ano depois, assumiu a direção do Balé da Ópera de Paris.
Soube de sua infecção pelo HIV em meados dos anos 1980. Nunca falou disso em público. Mesmo quando as forças visivelmente o abandonavam, negava estar doente. Seu último grande trabalho foi uma nova montagem de “La Bayadère” no Palais Garnier. Na estreia, subiu ao palco muito debilitado e recebeu das mãos do ministro da Cultura, Jack Lang, uma das mais altas distinções culturais da França.
Seu silêncio não era um caso isolado. Muitas celebridades escondiam então a doença por medo do estigma. Ainda assim, a morte de Nureyev mostrou o quanto a epidemia tinha atingido também o mundo das artes. Ele está enterrado no cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois, sob um túmulo que reproduz em mosaico um tapete oriental.